SERGEI RACHMANINOV

SERGEI RACHMANINOV 





CONCERTO PARA PIANO Nº 2 EM DÓ MENOR, OP. 18

SERGEI RACHMANINOV

(1900/1901)


Instrumentação: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tuba, tímpanos, percussão, cordas.

Vindo de uma família de forte tradição militar, Sergei Rachmaninoff foi educado sob os rígidos moldes da autocracia czarista de Alexandre III. Aos nove anos mudou-se para São Petersburgo, onde frequentou o Conservatório com auxílio financeiro do serviço imperial. Dois anos depois, estabeleceu-se em Moscou com a mãe recém-divorciada, ingressando no Conservatório daquela cidade. Lá, estudou piano com o severo Nicolai Zverev e Alexander Siloti – primo de Rachmaninoff – e composição com Sergei Taneyev e Anton Arensky. Em 1892, com apenas dezenove anos, completou seus estudos no Conservatório de Moscou, recebendo a Grande Medalha de Ouro pela composição da ópera Aleko. A reputação do jovem Rachmaninoff enquanto compositor, regente e pianista se firmava em toda a Rússia, ao passo que crescia também a expectativa em torno de suas novas criações. O Primeiro Concerto para Piano, opus 1, obra que inaugura seu catálogo de composições, recebeu as primeiras e duras críticas. A desastrosa execução de sua Primeira Sinfonia, opus 13, sob a direção de Alexander Glazunov, aparentemente bêbado, também lhe causou profundo desapontamento. A apresentação foi um fiasco completo: o próprio compositor abandonou a sala antes do término da Sinfonia. O golpe mais duro viria no noticiário da manhã seguinte: “se houvesse um conservatório no inferno, Rachmaninoff iria receber o primeiro prêmio por sua Sinfonia, tão diabólicas as discórdias que ele coloca diante de nós”, escreveu César Cui. Entre 1897 e 1898, Rachmaninoff permaneceu em profunda depressão. Não há uma composição sequer desse período. Seu desespero levou-o ao consultório particular do Dr. Nicolai Dahl, em Moscou. Dahl estudara na França com o célebre cientista Jean-Martin Charcot, pai da moderna neurologia e professor de Sigmund Freud.

Em janeiro de 1900, o Dr. Dahl iniciou o tratamento diário de Rachmaninoff, por mais de três meses, utilizando hipnoterapia e psicoterapia. Em certa ocasião, o paciente contou ao médico algo que muito o atormentava: a promessa que fizera aos ingleses de executar, em Londres, um concerto para piano e orquestra. Rachmaninoff, sabendo que seu Primeiro Concerto necessitava de minuciosa revisão, viu-se diante da necessidade de compor um novo concerto. Dahl, astutamente, durante a hipnose, sugestionava Rachmaninoff: “você vai começar a escrever o seu concerto, você trabalhará com grande facilidade, o seu concerto será uma grande obra”. Se o Dr. Dahl utilizou algum objeto para isso, como um relógio, não sabemos. Todavia, o Segundo Concerto para Piano, opus 18, inicia-se com uma série de acordes intercalados por uma nota grave, oscilando lentamente como um grande pêndulo, quiçá uma alusão ao método clássico criado pelo inventor da palavra hipnose, James Braid.

Para escrever o último movimento, Rachmaninoff provavelmente recorreu aos esboços de uma obra da juvenília: um inacabado Concerto em dó menor composto em 1889, aos dezesseis anos. Para o segundo movimento, utilizou a introdução do desconhecido Romance para Piano a Seis Mãos, de 1891. O segundo e terceiro movimentos foram apresentados em uma pré-estreia da obra, em dezembro de 1900. O primeiro movimento, considerado a melhor criação de Rachmaninoff do ponto de vista estrutural e melódico, foi concluído e estreado no ano seguinte. A obra completa, mas sem revisão, foi estreada em Moscou em novembro de 1901, com o compositor como solista, sob a regência de Alexander Siloti. A estreia inglesa – a primeira execução integral da obra revisada – ocorreu em 1902, com o legendário pianista russo Wassily Sapellnikoff, amigo íntimo de Tchaikovsky e professor de Nicolai Medtner. Segundo Rachmaninoff, “cada movimento foi construído em torno de um ponto culminante. (…) Tal momento deve realizar-se como o romper da fita de chegada ao fim de uma corrida, deve agir como a libertação do último obstáculo material, vencendo a última barreira entre a verdade e sua formulação”. A beleza e o fino acabamento da obra fizeram dela, além de exemplo de superação e êxito, um novo modelo estético de concerto romântico para piano. O impacto emocional do Segundo Concerto entusiasmou inúmeros autores de trilha para cinema a escreverem obras do gênero. Entre eles, podemos citar músicos como Richard Addinsell, Miklós Rosza, Nino Rota, Richard Bennett e Hubert Bath.

O Segundo Concerto de Rachmaninoff foi dedicado ao Dr. Dahl. O compositor, sabendo que Dahl, além de médico, era violista amador, fez frequente uso destacado da viola na orquestração da obra, principalmente no último movimento. Curiosamente, o Dr. Dahl tocou a obra, da qual foi catalisador, em Beirute, Líbano, para onde emigrou em 1925. Na ocasião, o pianista-compositor russo Arkadie Kouguell atuava frente à Orquestra da Universidade Americana de Beirute como solista e maestro. Ao fim da apresentação, o público, informado de que o homenageado do concerto era membro da seção de viola da orquestra, clamou para que Dahl se levantasse para uma calorosa homenagem.

Marcelo Corrêa Pianista, Mestre em Piano pela Universidade Federal de Minas Gerais, professor na Universidade do Estado de Minas Gerais

fonte: Site da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

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